quinta-feira, 26 de setembro de 2019

De carro, bicicleta, a pé ou de ônibus: as dificuldades de quem transita pelo Recife

Reportagem do Jornal do Commercio foi sentir na pele como é se locomover de diversas formas em algumas das vias mais movimentadas do Recife

Trânsito do Recife foi eleito o 10º pior do mundo / Foto: Diego Nigro/Acervo JC Imagem
Trânsito do Recife foi eleito o 10º pior do mundo
Foto: Diego Nigro/Acervo JC Imagem
JC Online

Na semana do Dia Nacional do Trânsito, comemorada nesta quarta-feira (25), um gesto simples como respeitar a sinalização deveria contribuir para um trânsito mais seguro e igualitário. Por esse motivo, o Jornal do Commercio foi sentir na pele como é se locomover de ônibus, bicicleta, carro ou até mesmo a pé, em algumas das vias mais movimentadas da Região Metropolitana do Recife (RMR). A data está diretamente relacionada à necessidade de se reduzir a quantidade de ocorrências no trânsito, sobretudo os acidentes com mortes. E o dia 25 de setembro foi escolhido como uma referência direta ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB), também conhecido como Lei nº 9503/1997.
Entre as dificuldades mais citadas por quem transita pela cidade, a perca de tempo no trânsito foi apontada como a mais frequente. Não é a toa que Recife conquistou o indigesto título de 'trânsito mais lento do Brasil' e eleito o décimo pior do mundo. Os dados foram divulgados em uma pesquisa promovida pela TomTom Traffic, que analisou 403 cidades de 56 países destintos. Além da lentidão do trânsito, o número elevado de veículos automotivos nas ruas gera uma divisão desigual de espaço para os demais meios de transporte. Com isso, quem se desloca de maneira alternativa enfrenta diversos problemas em seu cotidiano. 

Dificuldades

Os problemas do carro

Desde os 20 anos, a auxiliar administrativa Barbara Lucena, atualmente com 38, já tinha seu carro. Isso porque ela sentia muita dificuldade de sair de casa, que fica no bairro do Ipsep, Zona Sul do Recife, para ir trabalhar e estudar. Mas se engana quem acha que ter o seu próprio veículo não sofre nas ruas do Recife.
Congestionamento, esse pode ser o principal motivo para não andar de carro é o que conta Barbara Lucena. "Tenho carteira desde 2008, mas o congestionamento sempre foi um fator ruim. Qualquer acidente já trava o trânsito", disse.
Ainda de acordo Barbara, os buracos também atrapalham muito na hora de dirigir e principalmente para ela que não faz revisão do seu veículo frequentemente. "Demoro para fazer, geralmente só realizo a manutenção quando tem algum problema mecânico", explicou.

Ônibus: superlotação é principal empecilho para uso do transporte

O ônibus aparece como segundo meio de transporte usado pela população brasileira, segundo pesquisa do Instituto Ipsos e da 99. O modal, apesar de poluente como o carro, é considerado uma alternativa mais sustentável por ter a capacidade de transportar mais pessoas em um único veículo. Além da questão ambiental, o uso do transporte coletivo ajuda a diminuir as retenções no trânsito das cidades, que, na maioria das vezes, são provocadas por o uso excessivo de carros de passeio.
O que seria o cenário ideal, na prática, não é tão bem executado. Isso porque os transportes públicos, especialmente os ônibus, rodam em pouca quantidade. De acordo com a também auxiliar administrativa Jaqueline Nunes, 26 anos, que é usuária de ônibus da Região Metropolitana do Recife (RMR), a escassez causa superlotação nos veículos. "O ônibus vem sempre lotado e demora. Os ônibus não são de uma qualidade muito boa, balança muito. Pelo valor que a gente paga deveria ter bem mais conforto, segurança, mas não tem", reclama.
Para evitar ir ao trabalho em uma situação desconfortável, ela opta por fazer um percurso que alonga ainda mais seu trajeto, da sua casa, em Rio Doce, Olinda, até o bairro das Graças, Zona Norte do Recife. "Eu saio de casa, venho para o terminal todos os dias. Poderia estar dormindo, descansando, ou até mesmo indo para o trabalho. Mas eu tenho que voltar, umas cinco paradas, para entrar no terminal e encarar uma fila e ver se a primeira fila ainda dá pra ir. (Pelo trajeto), o certo seriam uns 40 a 50 minutos, mas (com a alteração no percurso) é uma hora e meia a duas horas", relata a jovem.

A bicicleta como alternativa

O uso da bicicleta vem crescendo nos últimos anos. De acordo com a pesquisa da 99 e do o Instituto Ipso, 16% da população usa a bicicleta ou patinete elétrico. Além de 100% sustentável, o modal "dribla" o trânsito convencional, provocados por carros e os veículos de transporte público.
A pedagoga Emanuela Benardino, 35, que mora na Encruzilhada, Zona Norte do Recife, tem como a bicicleta seu principal meio de locomoção desde 2011. Até mesmo para levar a sua filha, a pequena Lua, para a escola, que fica em Santo Amaro, na área central do Recife. Segundo explicou ela, andar de bicicleta mudou sua forma de ver a cidade. "Para mim, a bicicleta, além de ser prazerosa e trazer esse sentimento de liberdade, ela proporciona um deslocamento na cidade de forma muito mais autônoma. Com a bicicleta, eu me torno o próprio agente dos lugares que eu preciso me locomover", afirmou.
Com uso da bicicleta, Emanuela garante que poupa um "tempo valioso", que perderia caso utilizasse o carro ou ônibus, por exemplo. Porém, a falta de respeito e de infraestrutura viária tornam o trajeto mais perigoso. "A nossa cidade não respeita quem está fora do carro. Infelizmente, precisamos evoluir muito. É um sentimento de quem pedala e de quem é pedestre também. Ainda é muito precária a estrutura que temos", critica.
Segundo Emanuela, cenas de desrespeito fazem parte do seu cotidiano diário. "É difícil ter um dia que a gente não passe por situação assim. Têm dias que eu, particularmente, fico bem revoltada com certo tipo de atitude. Porque, as vezes, por questões de 10 segundos, até menos que isso, você ver uma pessoa tirando um fino (do ciclista). O que é uma pessoa dentro do carro esperar dois, três segundos para uma bicicleta passar?", pondera a pedagoga.

A difícil situação dos pedestres

Os pedestres também devem seguir algumas regras para deixar a rua um local seguro para todos que a utilizam. Atravessar na faixa de pedestre e obedecer algumas sinalizações são alguns dos exemplos que quem anda a pé deveria seguir.
Para o auxiliar adminstrativo Francisco Saturnino, de 49 anos, que vai de casa para o trabalho (ambos no bairro da Boa Vista, área central do Recife) andando, a maior dificuldade na rotina de quem é pedestre é enfrentar as calçadas em más condições do Recife. "Em alguns trechos as calçadas são largas e de repente ficam estreitas e acabam esse é o maior desafio", completou.
A cidade do Recife fica entre 2 e 8 metros acima do nível do mar, mas alagamentos são constantes quando chove. Isso é uma das principais reclamações tanto de motoristas como dos pedestres, mas imagina ter que andar pelas ruas alagadas. "Os alagamentos nas vias não só prejudicam na caminhada como podem causar alguma doença para quem pisa nas poças", finalizou.,

GALERIA DE IMAGENS

Desde os 20 anos, Barbara Lucena, atualmente com 38, já tinha seu carro
Legenda
Anteriores
  • Foto%3A%20JC%20Tr%E2nsito
  • Foto%3A%20JC%20Tr%E2nsito
  • Foto%3A%20JC%20Tr%E2nsito
  • Foto%3A%20JC%20Tr%E2nsito
Próximas

Listamos dicas de trânsito para pedestres, confira:

1- Caminhar de frente para o tráfego
2- Atravessar na faixa de pedestre
4- Ter o foco na rua
O artigo 70 do CTB relata que os pedestres que estiverem atravessando a via sobre as faixas delimitadas para esse fim terão prioridade de passagem, exceto nos locais com sinalização semafórica, onde deverão ser respeitadas as disposições do Código.
O artigo ainda fala, em um parágrafo único, que em locais onde houver sinalização semafórica de controle de passagem será dada preferência aos pedestres que não tenham concluído a travessia, mesmo em caso de mudança do semáforo liberando a passagem dos veículos.

Matérias

Relembre cinco especias do JC, ligados a mobilidade, que você não pode deixar de ler:
No ano de 2017 dois especiais entraram em cena, um sobre ciclistas e o outro sobre o Metrô do Recife. Já em 2018 três especiais movimentaram a cidade. Um falava de como é difícil a rotina de um rodoviário, a outra de como Fortaleza é um exemplo de ciclomobilidade e a última relata os problemas dos BRTs pelo Brasil.

Um metrô ainda renegado

Um metrô esquecido. Ainda esquecido. Que sofre para se manter em operação. Que pena para manter o sonho de crescer um dia. De se expandir. Um sistema forte e capaz de muito, mas que continua sendo renegado pela cidade, pelas gestões políticas e administrativas. Essa é a situação do Metrô do Recife, que transporta 400 mil passageiros, em média, por dia.

Eles Só queriam Pedalar

Matar no trânsito parece que dói menos, que é menor, menos impactante. Parece que indigna menos. A morte com arma de fogo ou branca choca e comove mais. E a morte de pessoas que usam bicicletas é ainda mais menosprezada. A culpa, quase sempre, parece ser da vítima.

RODOVIÁRIOS: “máquinas” sem manutenção

Eles não são máquinas. Carga horária excessiva, más condições de trabalho, terminais sem estrutura apropriada e os riscos ocupacionais aos quais estão submetidos. O transporte rodoviário de passageiros está em quarto lugar entre as profissões com mais comunicações de acidentes de trabalho em Pernambuco. Dores, estresse e problemas de saúde. Tudo isto faz parte do cotidiano dos motoristas e cobradores. E do seu também.

A revolução da ciclomobilidade: o exemplo de Fortaleza

Um tapa na cara. Assim podem ser vistos os ensinamentos que Fortaleza, no Ceará, tem dado ao País em relação à mobilidade urbana, especialmente à ciclomobilidade. A capital cearense, diferentemente da pernambucana – embora nordestina também – deu um salto na infraestrutura viária voltada para as bicicletas.

BRT e agora?

As feridas do sistema BRT são nacionais. Em todas as cidades onde o projeto do ‘metrô sobre pneus’ vingou há problemas. O maior deles é, hoje, a integração urbana com a cidade. Os planejadores esqueceram de priorizá-la. Ignoraram a capacidade de sociabilidade do sistema. E, como consequência, o BRT tem sofrido com a baixa demanda. Transporta menos passageiros do que foi projetado. É difícil chegar e sair das estações de embarque e desembarque, não importa o projeto nem a cidade brasileira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário